Caminhar na Ribeira da Torre, Santo Antão, Cabo Verde

Caminhar na Ribeira da Torre, Santo Antão, Cabo Verde

Inesperado é a palavra que retive da caminhada no Vale da Ribeira da Torre em Santo Antão, Cabo Verde.

“Há lá pouca gente … é difícil lá chegar! É mesmo por ali que querem ir? Os turistas que aqui vêm andar, os franceses, não vão para ali”. Sim, era mesmo na Ribeira da Torre que passaria a nossa caminhada.

Nomes como Lombo de Beatriz e Xôxô tinham-me cativado e, mais ainda, a ideia de que apesar de haverem povoados e algumas imagens de lugares espetaculares, raras eram as descrições de caminhadas por esses lados.

São escassos os mapas daquela zona. Só mesmo o Exército português tem mapas disponíveis, por quanto eu saiba.

Ainda em casa adivinhava que a cartografia para o GPS se mostrava claramente insuficiente não incluindo caminhos que, pelas imagens na internet, calculava que existiriam.

Nesse dia já tinha feito uma caminhada matinal dificil de igualar e o almoço foi também memorável.

Será que a tarde se revelaria em igual patamar? Não era nada fácil.

Das poucas informações que podia deduzir da maior parte dos mapas é que a descida iria ser muito acentuada. A carta do Exército fazia coincidir a orografia com as poucas fotografias que consegui encontrar e isso dava-me a segurança de poder combinar com a nossa boleia um local e hora para nos encontramos.

“Tem mesmo a certeza que sabe ir ter a esse sítio a pé?” insistia incredulo o motorista. Neu, o dito motorista, revelou-se uma pessoa espetacular cuja história contarei noutra oportunidade.

Após caminhar uma meia hora eu não poderia ficar mais desiludido, tudo o que via era um manto de nuvens que acimas das nossas cabeças dava um céu profundamente azul mas nem os contornos do fundo do vale podiamos ver.

Séculos de trabalho resultaram no que terá sido uma escadaria esculpida na encosta da montanha, onde andámos à toa durante cerca de quarenta e cinco minutos “sem ver um boi”, como se diz em bom português.

Percebia-se  que o ar quente subia pelo vale condensando a esta altitude onde a temperatura caía mais rapidamente.

Como diz o povo “não há mal que sempre dure nem bem que nunca acabe” e às páginas tantas lá ultrapassamos o nevoeiro e finalmente consegui ver a paisagem que tanto esperava.

Do fundo do vale profundamente marcado eleva-se um obelisco natural e não me será difícil acreditar que as forças da Terra terão ali erguido este monumento para proteção do próprio vale.

Esta sentinela tem protegido bem este vale quer de estranhos, como eu, mas também tem sabido manter em boa saúde os que aqui vivem. A terra é fértil e não faltam plantações abençoadas pela ribeira.

A descida massacra-nos as pernas e os joelhos já reclamam. A certa altura, em Lombo de Beatriz, reparo que em 2,5Km andados, descemos cerca de 800m.

No total o trilho tem cerca de 7,5Km de comprimento e 1200m de desnível negativo, contados desde o local de almoço até Xôxô, onde nos esperava a nossa boleia.

Ao chegarmos somos recebidos pela pontualidade e sorriso rasgado na cara de Neu que confessa a sua surpresa e a sua preocupação.

Tenho que aqui voltar para me vingar da neblina que marcou a fotografia de forma indelével. Mas esta é também a realidade que torna este vale tão fértil e que a população agradece.

Até ao meu regresso.

David Monteiro

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